CONDECORADO PELA REPÚBLICA: GOVERNO LULA DEU MEDALHA DE HONRA A DIPLOMATA PUNIDO POR BEIJAR FUNCIONÁRIA À FORÇA — E SÓ RECUOU QUANDO O CASO EXPLODIU
Um “serviço meritório e virtude cívica”, segundo o Itamaraty. Uma mulher de 23 anos que saiu chorando da embaixada, segundo os autos. O Diário Oficial assinou o prêmio. A imprensa assinou o escândalo.

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Há histórias que dispensam adjetivo. Basta colocar os fatos lado a lado e deixar o leitor fazer a conta.
De um lado, um diplomata, número dois da Embaixada do Brasil no Cairo, que beijou na boca, sem consentimento, uma funcionária egípcia de 23 anos. Do outro, o governo do presidente Lula, que quatro anos depois o premiou com uma das mais altas honrarias da diplomacia brasileira.
O nome dele é Rubem Mendes de Oliveira. O prêmio: a Ordem de Rio Branco, no grau de comendador, publicada no Diário Oficial da União em abril de 2026.
O beijo que virou processo
Em 28 de fevereiro de 2022, a jovem entrou na sala do diplomata para se despedir, já que ele seria transferido para o Haiti. Segundo o relato dela, ele disse que a considerava como uma filha e perguntou se podia dar um beijo de despedida. Ela aceitou, imaginando um beijo no rosto. Ele a beijou na boca.
A funcionária deixou a embaixada chorando. No dia seguinte, ele mandou mensagem dizendo esperar que ninguém tivesse visto a cena. Repare no detalhe: a preocupação não era com o que fez, era com quem viu. Depois de repreendido por ela, pediu desculpas e disse estar envergonhado.
Não há dúvida sobre os fatos. O próprio diplomata confessou o beijo durante o processo administrativo disciplinar aberto pelo Itamaraty.
As palavras do próprio Itamaraty
No termo de indiciamento, o ministério foi direto. O beijo não consentido dentro da repartição, escreveu, configura assédio sexual em ambiente de trabalho. E destacou um agravante que pesa como chumbo: ele tinha “clara ascendência profissional” sobre a vítima. Era o chefe. Ela era a subordinada, estrangeira, de 23 anos, prestes a ver o superior ir embora.
Não é a oposição quem diz isso. É o Ministério das Relações Exteriores, em documento oficial.
A pena que sumiu
E qual foi o castigo? A suspensão de 40 dias, pena posteriormente convertida em multa. Traduzindo: o diplomata pagou para continuar trabalhando. Na sequência, assumiu postos de chefia em Porto Príncipe, no Haiti, e depois em Berna, na Suíça.
Quem denunciou ficou com o trauma. Quem foi punido ganhou promoção de cenário.
E há mais. A senadora Damares Alves lembra, em requerimento ao Itamaraty, que o ministério afastou a classificação de assédio sexual ao concluir o julgamento, registrando a conduta apenas como violação da moralidade. Ou seja: o indiciamento falava em assédio; o desfecho baixou o tom. Fica a pergunta que o Itamaraty precisa responder: o que mudou entre uma peça e outra?
A medalha
Chegamos ao ponto que ninguém consegue explicar. A Ordem de Rio Branco existe, nas palavras do próprio governo, para reconhecer “serviços meritórios e virtudes cívicas”. Virtudes cívicas. Para um homem que confessou ter beijado à força uma subordinada dentro da embaixada.
O decreto leva a assinatura de Lula e do ministro Mauro Vieira. Ninguém se levantou no caminho para perguntar se aquilo fazia sentido. Nenhum filtro, nenhuma checagem, nenhuma consulta ao histórico funcional. Ou pior: alguém sabia e seguiu adiante.
Procurado pela imprensa para explicar a concessão, o Ministério das Relações Exteriores não quis se manifestar.
O recuo de quem foi pego
O governo só se moveu quando a história ganhou as manchetes. O decreto que tornou sem efeito a admissão do diplomata na Ordem foi publicado em 17 de setembro. Repare no calendário: a condecoração foi silenciosa em abril, e a revogação veio depois de revelações da imprensa e pressão pública.
Sem reportagem, a medalha continuaria no peito dele. É a diferença entre corrigir um erro e apagar um incêndio: um governo que corrige age antes de ser exposto. Este agiu depois.
E a revogação não encerra o assunto. Damares cobra respostas: quem indicou o nome, quais critérios foram usados, se as instâncias responsáveis conheciam o histórico de assédio. A senadora pede ainda o número de denúncias de assédio sexual nas representações brasileiras no exterior nos últimos três anos. É essa a conta que o Itamaraty teme apresentar.
O padrão que incomoda
Some os episódios e o retrato fica incômodo. Na mesma semana em que o governo tenta se explicar sobre a medalha, o presidente ainda administra o desgaste da fala em que disse que mulheres “aprendem a tomar toque desde pequenas”. Antes disso, exaltou em discurso oficial um homem que se casou com uma menina de 12 anos.
Cada caso tem sua explicação, seu contexto, sua nota de esclarecimento. Mas o eleitor não lê notas: lê manchetes. E as manchetes de um governo que se apresenta como defensor das mulheres seguem contando a mesma história: a proteção só aparece no discurso.
O que o governo precisa responder
Quatro perguntas que seguem sem resposta:
- Quem indicou Rubem Mendes de Oliveira à Ordem de Rio Branco?
- A comissão que aprovou o nome conhecia o processo disciplinar? Se sim, por que seguiu? Se não, que tipo de controle é esse?
- Por que o enquadramento final foi mais brando do que o do indiciamento?
- Por que a pena de suspensão foi convertida em multa, permitindo que o diplomata seguisse em cargos de chefia?
Enquanto o silêncio persistir, a medalha revogada será lembrada como o símbolo de um governo que premiou primeiro e perguntou depois.
Nota editorial: os fatos relatados constam de reportagens da imprensa e de requerimento da senadora Damares Alves. A condecoração foi revogada por decreto de 17 de setembro. O Itamaraty não se manifestou sobre a concessão quando procurado. A vítima não é identificada nesta matéria.