“MULHERES APRENDEM A TOMAR TOQUE DESDE PEQUENAS”: LULA REPETE O PADRÃO E ATROPELA A INFÂNCIA DE NOVO
Em Belém, no coração de um estado dilacerado por denúncias de abuso infantil, o presidente disse o que não podia dizer. E não é a primeira vez que ele romantiza o que deveria condenar.

Imagem: Criado por IA
Existe um limite que separa o improviso do desrespeito, e Lula o atravessou de novo. Em comício em Belém, na segunda-feira (28), o presidente resolveu convencer os homens a fazerem exame de próstata e escolheu, para isso, a comparação mais desastrada possível: “As mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas.”
Desde pequenas. No país que se diz horrorizado com a violência sexual contra crianças. No estado que carrega a mancha de Marajó. Diante de câmeras, microfones e milhares de pessoas. Dito por quem preside a República e pede o voto das mulheres brasileiras.
Uma frase que fala mais do que ele queria
A campanha correu para a nota de socorro: o presidente “obviamente se referiu a exames ginecológicos preventivos” que fazem parte da rotina da saúde da mulher, desde jovem. Só que ele não disse “desde jovem”. Disse “desde pequenas”. A palavra foi dele, não da oposição.
Quando o candidato à reeleição precisa de uma nota oficial para explicar o que “obviamente” quis dizer, o problema já está criado. Uma frase clara não precisa de intérprete.
E o pior: depois da repercussão, em Salvador, Lula admitiu ter usado “uma frase errada”. Errada, presidente? Errada é a conta que não fecha. A frase que vincula a infância ao “toque” é ofensiva, e ofensa não vira detalhe de vocabulário por decreto.
A medicina desmonta a comparação
Vamos aos fatos, porque o palanque não muda a realidade clínica.
Meninas não “aprendem a tomar toque” desde pequenas. O ginecologista, para meninas novas, entra em cena para acompanhar problemas específicos, e o toque é o último recurso, não a rotina. O rastreamento do câncer do colo do útero, o famoso preventivo, é indicado na vida adulta, a partir dos 25 anos, segundo as diretrizes brasileiras. Dizer o contrário é desinformação dita do púlpito mais alto do país. Não é à toa que se registrou que as mulheres não são submetidas rotineiramente, “desde pequenas”, a exames ginecológicos invasivos, e que procedimentos íntimos fora dos protocolos podem caracterizar violência ou abuso sexual.
E há mais: os homens não estão condenados apenas ao toque. Existe exame de sangue, o PSA, que faz parte da investigação de alterações na próstata. Lula transformou uma campanha de saúde em piada de arquibancada, ridicularizou os homens como “covardes” e, no meio do caminho, jogou sobre as meninas uma experiência que a medicina não prescreve.
Não surpreende que o médico Victor Augustho tenha acionado a Sociedade Brasileira de Pediatria e a Febrasgo para pedir posicionamento. Quando a categoria médica é convocada para desmentir o presidente, é porque o presidente errou feio.
O cenário agrava tudo
O erro não foi cometido no vazio. Foi no Pará, estado que ficou conhecido nacionalmente pelas denúncias de exploração sexual de crianças e adolescentes, com a Ilha de Marajó como símbolo. Ali, cada palavra sobre infância pesa o dobro. Ali, uma autoridade que se preze mede a língua.
Lula não mediu. A reação foi imediata: a coordenadora do programa econômico de Flávio Bolsonaro chamou a fala de “abjeta”, e o PL afirmou que “criança não precisa ser tocada desde cedo”, “criança precisa ser protegida, respeitada e ter sua infância preservada”. Nikolas Ferreira foi seco: “Meninas não são, Lula, tocadas desde cedo, não”. Declaração de Lula sobre toque em mulheres é abjeta, diz Daniella Marques +2
Não é um deslize isolado: é um padrão
Se fosse uma escorregada única, a discussão seria outra. Mas quem acompanha o presidente sabe que a infância já foi maltratada em outros discursos dele.
Em 2 de julho de 2024, na entrega de casas em Recife, Lula contou a história de um catador de papel, o Felipe, e deixou escapar o que o Planalto registrou em transcrição oficial: “Ele casou com a menina, ela tinha 12 anos”, e “ele está apaixonado por ela há 28 anos”. Não foi pegadinha, não foi montagem: está no site do governo.
Repare no tom. Não era uma denúncia. Não era lamento. Era elogio, com direito a ternura no palco. Um homem que se casou com uma menina de 12 anos foi apresentado como exemplo de paixão duradoura, diante da plateia, da imprensa e de uma menina que hoje é mãe de dez filhos.
A idade do homem à época nunca foi divulgada, mas isso pouco importa para o essencial: a menina tinha 12 anos. A lei brasileira trata quem tem menos de 14 como vulnerável. O casamento de menores de 16 é proibido desde 2019. O Estado brasileiro combate, em cartilhas e campanhas, o casamento infantil, e o presidente da República o tratou como conto de fadas. faroldabahia
O senador Magno Malta chamou a fala de “criminosa” e “nojenta e repugnante”, e o deputado Kim Kataguiri reagiu com espanto: “Casou com uma menina de 12 anos e o Lula está comemorando”. Que se registre: são as palavras da oposição, e cabe a ela o ônus de sustentá-las. Mas a transcrição, essa é do Planalto.
Duas falas, um mesmo problema
Some as duas cenas. Em 2024, a menina de 12 anos vira símbolo de amor eterno. Em 2026, as mulheres “aprendem a tomar toque desde pequenas”. Em ambas, a infância feminina é tratada como detalhe, como pano de fundo para uma tirada de palanque.
Não é preciso atribuir intenção maldosa para constatar o óbvio: há uma naturalização recorrente de algo que a sociedade brasileira, a lei e a medicina tratam com extrema seriedade. Falta ao presidente sensibilidade para o assunto, e sobra desenvoltura para improvisar justamente onde deveria calar.
Ofensa se mede pelo efeito
O argumento preferido dos aliados é sempre o mesmo: “ele não quis dizer isso”. Pode ser. Mas comunicação pública se avalia pelo efeito, e o efeito foi ofender mulheres, chocar famílias e ferir a memória de meninas que, de fato, sofreram violência. O que era para ser uma campanha de conscientização virou combustível para a oposição.
A fala foi ofensiva porque:
- Sugere que o toque íntimo faz parte da infância feminina, o que contradiz a medicina e a proteção legal de crianças e adolescentes.
- Banaliza uma experiência que é, para muitas mulheres, constrangedora ou traumática, e a transforma em ferramenta de deboche contra homens.
- Foi dita em um estado onde a violência sexual contra menores é chaga aberta, por quem deveria ser o primeiro a proteger.
- Repete o padrão de 2024, quando o presidente exaltou a união de uma menina de 12 anos.
O que resta ao eleitor
Faltando poucos dias para o primeiro turno, Lula pede votos como protetor das mulheres e das famílias. Mas quem protege não escorrega, duas vezes, no vocabulário da desproteção. Reconhecer “uma frase errada” depois da tempestade não basta. Faltou o que sempre falta: um pedido de desculpas direto às mulheres, às mães e às meninas que ouviram essa comparação.
A pergunta que fica é simples. Se o presidente tropeça assim em um discurso sobre exame de próstata, com equipe, tempo e roteiro, o que dizer das decisões que exigem responsabilidade de verdade?
Nota editorial: as falas de Lula de 28 de setembro de 2026 foram reproduzidas por veículos de imprensa; a de 2 de julho de 2024 consta da transcrição oficial do Planalto. As críticas de parlamentares e partidos são de responsabilidade de seus autores. A campanha do presidente afirma que ele se referiu a exames ginecológicos preventivos.