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Política

“Até a máfia tem ética”: fala de Gilmar Mendes provoca indignação e levanta debate sobre blindagem entre ministros do STF

By Bahia Realidade News
setembro 16, 2026 6 Min Read
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“Até a máfia tem ética”: fala de Gilmar Mendes provoca indignação e levanta debate sobre blindagem entre ministros do STF

Comparação feita por ministro do STF com organização criminosa causa repercussão e reacende discussão sobre imparcialidade, conflitos de interesse e proteção entre integrantes da própria Corte

Foto divulgação

A frase dita pelo ministro Gilmar Mendes durante uma sessão do Supremo Tribunal Federal provocou forte repercussão e abriu mais uma discussão sobre a postura dos integrantes da mais alta Corte do país.

Durante o embate com o ministro André Mendonça, Gilmar Mendes afirmou: “Até a máfia tem ética.”

A declaração chama atenção não apenas pela expressão utilizada, mas pelo contexto em que foi proferida: uma discussão dentro do próprio Supremo envolvendo ministros, investigações, relações entre autoridades e questionamentos sobre a atuação de integrantes da Corte.

A comparação com a máfia causou indignação porque a máfia, no sentido comum e histórico do termo, está associada a organizações criminosas estruturadas para a prática de atividades ilícitas. Ao utilizar essa referência em um debate institucional, o próprio ministro acabou colocando uma organização criminosa como parâmetro retórico para discutir comportamento e lealdade.

Para críticos, a escolha da expressão é extremamente inadequada para um integrante do tribunal responsável por interpretar a Constituição e julgar casos de enorme relevância nacional.

“Até a máfia tem ética”: por que a frase repercutiu?

A frase de Gilmar Mendes não pode ser analisada isoladamente.

Ela ocorreu durante uma sessão marcada por um forte confronto entre ministros do STF, com acusações e questionamentos relacionados à condução de procedimentos envolvendo integrantes da própria Corte.

Nesse cenário, a utilização da palavra “máfia” ganhou dimensão ainda maior.

A população brasileira espera que uma Suprema Corte seja associada à Constituição, à legalidade, à imparcialidade e à Justiça. Por isso, quando um ministro utiliza uma organização criminosa como referência durante uma discussão envolvendo seus próprios colegas, é natural que surjam questionamentos sobre a mensagem transmitida à sociedade.

Não se trata de afirmar que ministros do STF tenham qualquer ligação com organizações criminosas. A fala foi uma comparação retórica feita durante o debate, e não uma acusação de que integrantes da Corte pertençam à máfia.

Ainda assim, a escolha da comparação pode ser criticada pelo seu peso institucional.

A pergunta que fica: até onde vai a lealdade entre colegas?

Outro ponto que merece atenção é a discussão sobre eventual proteção entre integrantes de uma mesma instituição.

Em qualquer sistema de Justiça, a imparcialidade é essencial. O magistrado não deve decidir um processo movido por relações pessoais, interesses particulares ou vínculos que comprometam a necessária distância em relação às partes.

O Código de Processo Civil estabelece hipóteses de impedimento e suspeição. Entre elas está a situação em que o juiz é considerado amigo íntimo ou inimigo de uma das partes, além de situações em que exista interesse no julgamento.

Isso não significa que toda amizade ou relação profissional entre autoridades constitua automaticamente crime ou impedimento.

É necessário verificar quem são as partes, qual é o processo, qual é o vínculo e se a situação se enquadra efetivamente em uma hipótese prevista em lei.

Mas o princípio é claro: quando existe uma circunstância capaz de comprometer a imparcialidade, o ordenamento jurídico prevê mecanismos para questionar a atuação do magistrado.

Blindagem ou imparcialidade? A diferença precisa ser investigada

A expressão “blindagem” é forte e deve ser usada com cautela.

Não é possível afirmar simplesmente que um ministro “blindou” outro colega sem apresentar fatos concretos que demonstrem uma atuação destinada a impedir investigação, responsabilização ou julgamento.

Por outro lado, é legítimo questionar publicamente se os mesmos critérios são aplicados a todos, especialmente quando estão em discussão fatos relacionados aos próprios integrantes do tribunal.

A Constituição estabelece garantias relacionadas ao devido processo legal, ao juiz competente, ao contraditório e à ampla defesa. Também determina que os julgamentos do Poder Judiciário sejam públicos e que suas decisões sejam fundamentadas, ressalvadas as hipóteses legais de restrição.

Esses princípios existem justamente para que a Justiça não dependa da relação pessoal entre autoridades.

Se houver impedimento, não é uma questão de amizade: é uma questão jurídica

Existe uma diferença importante entre amizade pessoal e suspeição juridicamente reconhecida.

O Código de Processo Civil estabelece expressamente que o juiz pode ser considerado suspeito quando for amigo íntimo ou inimigo de qualquer das partes ou de seus advogados. Também prevê suspeição quando o magistrado tiver interesse no julgamento em favor de uma das partes.

Portanto, se existir uma situação concreta enquadrada na legislação, o caminho não é simplesmente acusar alguém de “proteger amigo”.

É possível apresentar formalmente uma alegação de suspeição ou impedimento, com fundamento jurídico e provas, para que a questão seja examinada.

Essa distinção é fundamental para preservar a credibilidade do debate público.

O problema da imagem institucional

Independentemente da interpretação jurídica sobre a fala, existe uma questão de imagem institucional.

Ministros do Supremo ocupam uma posição de enorme responsabilidade pública. Suas palavras têm repercussão nacional e podem influenciar a percepção da sociedade sobre o funcionamento do Judiciário.

Quando um ministro diz que “até a máfia tem ética”, a frase inevitavelmente produz um impacto muito diferente daquele que teria sido produzido por uma linguagem estritamente jurídica.

A comparação pode ser interpretada como uma tentativa de enfatizar uma crítica severa ao comportamento que estava sendo discutido naquele momento.

Mas também pode provocar a reação contrária: afinal, por que uma Suprema Corte precisaria recorrer à máfia como parâmetro de ética durante uma discussão entre seus próprios integrantes?

É justamente essa contradição que transformou a frase em um dos principais momentos da sessão.

A Justiça precisa estar acima das relações pessoais

O cidadão comum não tem acesso aos mesmos mecanismos de poder, influência e relacionamento existentes no ambiente das altas autoridades.

Por isso, a percepção de que integrantes de uma instituição possam agir de maneira diferente quando o assunto envolve colegas precisa ser tratada com seriedade.

A Constituição estabelece que ninguém pode ser privado de seus direitos sem o devido processo legal e garante que ninguém seja processado ou sentenciado senão pela autoridade competente.

O princípio da imparcialidade é fundamental para que a Justiça seja percebida como Justiça — e não como um ambiente de proteção recíproca.

Falar em crime exige prova e enquadramento legal

É importante fazer uma distinção: eventual proteção indevida entre autoridades não pode ser automaticamente chamada de crime.

Para que uma conduta seja considerada criminosa, é necessário que exista previsão legal e que os fatos concretos preencham os elementos do tipo penal correspondente.

A Constituição estabelece o princípio de que não há crime sem lei anterior que o defina.

Assim, afirmar genericamente que “blindar colegas é crime anticonstitucional” seria juridicamente impreciso.

O debate correto é outro: se houver atuação de magistrado em situação de impedimento ou suspeição, existem mecanismos processuais próprios para questionar essa atuação e, conforme o caso concreto, buscar a nulidade dos atos praticados quando presente a causa legal. O CPC prevê inclusive consequências processuais para situações reconhecidas de impedimento ou suspeição.

Uma fala que dificilmente passa despercebida

A declaração de Gilmar Mendes transformou uma discussão entre ministros em um debate ainda maior sobre a imagem do Supremo perante a sociedade.

A frase “até a máfia tem ética” ganhou repercussão porque colocou uma organização historicamente associada ao crime como referência retórica em uma discussão sobre comportamento e relações dentro da própria Corte.

Não cabe ao jornalismo transformar a frase em uma acusação criminal contra qualquer ministro.

Mas cabe perguntar:

Quais são os limites da lealdade entre colegas quando estão em jogo investigações envolvendo integrantes da própria instituição?

Quais critérios devem ser aplicados quando um ministro precisa analisar fatos que envolvem outro integrante da Corte?

Quando uma relação pessoal pode gerar suspeição ou impedimento?

E, principalmente:

A sociedade pode confiar que os mesmos critérios jurídicos serão aplicados independentemente de quem esteja sendo investigado ou julgado?

São perguntas que não devem ser respondidas por torcida política, mas por transparência, Constituição, legislação e fatos comprovados.

A fala de Gilmar Mendes, contudo, já deixou uma imagem difícil de ignorar: em plena Suprema Corte brasileira, uma organização criminosa foi utilizada como referência em uma discussão sobre ética.

E é justamente essa comparação que continuará alimentando o debate público sobre a postura e a credibilidade institucional do STF.

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Bahia Realidade News

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